Crítica: Bom Garoto
Um jovem de 19 anos é sequestrado por um casal que decide submetê-lo a um processo de “reabilitação” para transformá-lo em um “bom garoto”. O que começa como uma tentativa de ensinar disciplina rapidamente se transforma em uma situação perturbadora e cada vez mais perigosa.
Uma história extremamente pesada

Bom Garoto é um daqueles filmes que deixam uma sensação desconfortável depois que terminam. A história acompanha Tommy (Anson Boon), um jovem de 19 anos que é sequestrado por Chris (Stephen Graham) e Kathryn (Andrea Riseborough), um casal disfuncional que decide mantê-lo preso e submetê-lo a uma espécie de processo de reabilitação forçada. A intenção declarada é transformá-lo em um “bom garoto”, mas a situação rapidamente se transforma em algo muito mais perturbador.
Confesso que passei boa parte do filme sem entender exatamente por que aquele casal havia feito aquilo. A situação é tão absurda e desconfortável que fiquei tentando compreender quais eram as reais intenções deles e até onde aquilo iria.
E justamente por isso o filme consegue causar tensão. Existe uma sensação constante de que alguma coisa está muito errada, mas você não sabe exatamente o que vai acontecer em seguida.
Tommy e uma situação cada vez mais perturbadora

Tommy é um personagem bastante complicado. Ele não é apresentado como alguém inocente ou perfeito e possui comportamentos questionáveis, mas nada disso torna aceitável o que acontece com ele.
A partir do momento em que é sequestrado, ele perde completamente o controle sobre a própria vida e passa a ser submetido às regras daquele casal. O filme trabalha muito com essa ideia de controle e punição, mostrando até onde alguém pode chegar quando acredita que tem o direito de decidir como outra pessoa deve viver.
O que mais me incomodou foi justamente perceber que, aos poucos, Tommy vai sendo colocado naquela situação de maneira cada vez mais absurda. O casal determina quando ele pode sair, o que pode fazer e como deve se comportar, criando uma espécie de “educação” baseada no medo e na violência.
O filho do casal

Outro personagem que me chamou bastante atenção foi Jonathan, o filho de Chris e Kathryn.
Fiquei com muita dó dele durante o filme. Ele também está inserido naquele ambiente completamente disfuncional e acaba sendo afetado pelas escolhas dos adultos ao seu redor.
Uma das situações que mais me incomodou foi quando o menino é castigado depois de fumar. Achei extremamente inadequado ver uma criança daquela idade fumando, mas, ao mesmo tempo, toda a situação mostra como ele está crescendo em um ambiente no qual os adultos não parecem oferecer exatamente o melhor exemplo.
É como se tudo naquele filme estivesse errado de alguma maneira: Tommy está preso, o casal está tentando controlar a vida dele e o próprio filho está sendo criado dentro daquela dinâmica extremamente problemática.
Atuações que deixam tudo ainda mais desconfortável

Um dos grandes destaques de Bom Garoto é o elenco.
Anson Boon, como Tommy, consegue transmitir muito bem a vulnerabilidade e o desespero do personagem. Mesmo quando Tommy toma decisões questionáveis, é impossível não sentir a tensão de vê-lo preso naquela situação.
Stephen Graham, que interpreta Chris, entrega uma atuação extremamente intensa. O ator consegue construir um personagem perturbador sem precisar transformar cada momento em uma caricatura de vilão. Chris acredita que está fazendo a coisa certa, e justamente essa convicção torna tudo ainda mais assustador.
Graham é conhecido por trabalhos como This Is England, Boardwalk Empire, The Irishman e Boiling Point, além de ter interpretado personagens marcantes em produções de cinema e televisão.
Já Andrea Riseborough, como Kathryn, traz uma personagem igualmente complexa. Ela ajuda a criar essa atmosfera estranha dentro da casa e demonstra diferentes camadas ao longo da história. A atriz é conhecida por filmes como A Substância, To Leslie e Birdman.
A química entre Graham e Riseborough funciona justamente porque os dois conseguem transmitir a sensação de que existe algo profundamente errado naquela família.
Um filme difícil de assistir

A atmosfera de Bom Garoto é provavelmente o elemento que mais funciona para mim.
O filme não precisa depender apenas de grandes cenas de violência para causar desconforto. Boa parte da tensão vem da própria situação: um jovem preso dentro de uma casa, sem saber o que seus sequestradores pretendem fazer com ele.
É um thriller psicológico que também mistura elementos de terror, drama e crime, e a direção de Jan Komasa aposta bastante no desconforto e no absurdo da situação.
Porém, justamente por abordar temas tão sensíveis, achei a experiência bastante pesada.
Uma recomendação para um público mais velho

A classificação indicativa encontrada para o filme é 16 anos, mas, depois de assistir, eu particularmente recomendaria para um público ainda mais maduro.
Não apenas pelo conteúdo, mas principalmente porque a história envolve situações de violência, abuso, drogas, punições e escolhas extremamente problemáticas.
Acredito que espectadores mais jovens podem não ter maturidade suficiente para compreender algumas das questões apresentadas ou podem acabar interpretando determinadas atitudes dos personagens de maneira equivocada.
Não é um filme que eu recomendaria para qualquer pessoa. É uma produção que exige disposição para lidar com assuntos bastante desconfortáveis.
Veredito

Bom Garoto é um filme muito pesado, perturbador e desconfortável. A premissa é interessante, mas confesso que passei boa parte da história tentando entender por que aquele casal havia sequestrado Tommy e decidido mantê-lo em cárcere privado.
Aos poucos, o filme vai revelando suas intenções e tornando a situação cada vez mais absurda. Também fiquei muito incomodada com algumas das situações envolvendo o filho do casal e com a maneira como aquela família funciona.
E preciso dizer que fiquei sem entender nada do final. Quando os créditos começaram, fiquei realmente tentando compreender o que havia acontecido e qual era a intenção daquela conclusão. Para mim, o encerramento deixou ainda mais dúvidas do que respostas e acabou prejudicando a experiência com a história.
Apesar de toda essa confusão, reconheço que as atuações são muito boas, especialmente Anson Boon, Stephen Graham e Andrea Riseborough. Eles conseguem fazer com que o espectador realmente se sinta desconfortável dentro daquela casa.
É uma história que aborda temas muito sensíveis e, por isso, eu recomendaria o filme para maiores de 18 anos, mesmo com a classificação oficial de 16 anos.
Não é uma experiência leve e definitivamente não é um filme para assistir sem saber o tipo de história que está por vir.